Paulo Camelo

Poesia é sentimento. O resto é momento.

Textos

O falar e o escrever
O falante lusófono comum, em alguns casos, escreve o que não está falando, por não dominar o idioma como deveria, pelo menos o coloquial, sem precisar de se deter no formal, no clássico. Fala uma coisa, escreve outra, e muitas vezes não sabe o que está falando nem o que está escrevendo.
Há uma certa dificuldade (e isso eu venho notando de uma década para cá) em saber e conjugar os verbos mais comuns. Confunde o tempo infinitivo com a primeira ou a terceira pessoa do presente do indicativo. Exemplo: “Eu ouvir você dizer que estar doente.” Seria: “Eu ouvi você dizer que está doente.” Outras vezes escreve: “Ele deve está fazendo isso.”, no mesmo erro, agora trocado, pondo o presente do indicativo onde seria infinitivo. Ou: “Eu vou vê isso para você”.
Eu vejo constantemente esses erros de fala/escrita em alguns verbos mais comuns: estar, ver, sair, ouvir, cair (parece que a terceira conjugação é mais difícil).
Em outras vezes, confunde o verbo ver com o verbo haver. E diz: “Isso tem tudo haver comigo.” Esta pequena frase mostra que o falante não sabe o que está dizendo, ou escrevendo. Não sabe a utilização da preposição “a” e erra, pelo som, na troca do “a ver” pelo “haver”. E pior: Eu já vi escrito (e por quem se arvora a ser escritor): “Essa nossa crônica tem muita a haver com o momento que estamos passando.” Ora, o advérbio de intensidade “muito”, como todo advérbio, é imutável. E aí o falante/escritor trocou totalmente o “ver” com o “haver”, pois usou a preposição “a” anterior: “a haver”.
Nota-se, com esses erros simples e comuns, que o falante está se distanciando do escritor, a fala está se dissociando da escrita, e essas pequenas falhas mostram que o falante fala mas não compreende o que fala, quando não sabe pôr no papel o que quis dizer.
02/09/2026
Paulo Camelo
Enviado por Paulo Camelo em 04/09/2026


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